terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

José Maria Santos Um ator para quem o sinal nunca fechou...

José Maria Santos nasceu em Guarapuava no dia 12 de dezembro de 1933 e morreu em Curitiba, em 4 de janeiro de 1990.

Seu nome completo era José Maria Ferreira Maciel dos Santos. Atuou em teatro e cinema. Trabalhou como diretor de teatro do TECEFET.

Trabalhos em que se destacou

Teatro

* "O boi e o burro", de Maria Clara Machado.
* "Lá", de Sérgio Jockyman.

Cinema

* "Aleluia Gretchen", de Sylvio Back. Em 1977, recebeu o prêmio Kikito como melhor ator coadjuvante como Dr. Aurélio.

Diretor de Teatro - TECEFET

* "O Auto da Compadecida", de Ariano Suassuna - 1972.
* "O Irmão das Almas", de Martins Pena - 1973.
* "Chapetuba Futebol Clube", de Oduvaldo Viana Filho - 1974.
* "Pagador de Promessas", de Dias Gomes - 1975.
* "Os Falantes e a Guarda Cuidadosa", de Cervantes - 1976.
* "Pequenos Burgueses", de Máximo Gorki - 1977.
* "Arena Conta Zumbi" e "Arena Conta Tiradentes", - 1978.
* "Na Boca dos Poetas", de criação coletiva - 1979.
* "A Invasão", de Dias Gomes - 1980.
* "A Ameaça Veio Com a Chuva", de Mírian San Juan - 1981.
* "A Ralé", de Máximo Gorki - 1982.
* "O Doente Imaginário", de Molière - 1983.
* "Tudo Azul no Hemisfério Sul", de Marcos Borges - 1984.
* "Eles Não Usam Black-Tie", de Gianfrancesco Guarnieri - 1985.
* "Bodas de Sangue", de Federico Garcia Lorca - 1986.



Jornal do Estado, Curitiba, 25 DE abrIL DE 1990. Espaço Dois.

José Maria Santos Um ator para quem o sinal nunca fechou... apenas deixou de funcionar
Ulisses Iarochinski

Em 1978, José Maria Santos estreava o monólogo “Muro de Arrimo”, uma peça que contava as desventuras de um pedreiro fanático por futebol e desesperado com a seleção canarinho. A montagem, no entanto, não alcançaria o sucesso desejado. Zé Maria, sensível como era, não conseguia entender porque não tinha agradado com um texto que trazia a própria tragicomédia nacional: o fanatismo futebolístico. O ator estava realmente frustrado com o fracasso. Quando isso acontecia e felizmente foram poucas estas vezes em sua carreira, Zé Maria saía proclamando a todos sua disposição de deixar o palco. Era início de 1979 e ele dizia a todos que tinha encerrado sua carreira de ator, que a partir de então iria se dedicar ao grupo de teatro do Cefet e a direção e produção dos espetáculos de sua Cia. Dramática Independente. Quem o ouviu nesta época tinha quase a certeza de que ele realmente tinha abandonado a interpretação.

Mas não foi o que se viu. Zé Maria continuou, é verdade com as aulas no Cefet, a dirigir e a produzir, mas passados alguns meses, lá estava ele novamente no palco. E sem surpresa para ninguém ele voltava na pele do Dr. Raul, o advogado que ficava preso no banheiro num fim de semana, na peça “Lá” de Sérgio Jockyman. Espetáculo recordista de apresentações e de público na história do teatro paranaense. Foram mais de 1800 apresentações em 18 anos de temporadas. Certamente nenhuma outra peça teatral brasileira alcançou tais números no Brasil, em todos os tempos. Sucesso absoluto de público e de crítica. Para o decano dos críticos teatrais do Brasil, Sábato Magaldi, “José Maria Santos sai aprovado do banheiro. Ele consegue fazer do público seu cúmplice, na deliciosa situação que lhe impõe Lá. Profissional há algumas décadas em Curitiba, veio tentar a praça de São Paulo e ver se retomava com boa crítica, afinal necessária à carreira de qualquer ator. O desempenho de Lá em cartaz no Teatro Paiol, permite que, ao menos de minha parte, ele receba a aprovação”. A crítica foi publicada no Jornal da Tarde, em 1973.

Aliás, foi com Lá que José Maria Santos subiu pela última vez num palco antes de morrer. A temporada aconteceu em setembro do ano passado no Auditório Antonio Carlos Kraide, do Centro Cultural do Portão. E se no espetáculo o público ri sem parar do grotesco da situação apresentada no palco, as mesmas gargalhadas já se faziam sentir antes das cortinas se abrirem. O programa do espetáculo (folheto distribuído ao público contendo a ficha técnica e considerações sobre o espetáculo) é outra peça de humor. A verdade é que nesses dezoito anos muitos programas (versões) foram distribuídos ao público. Já que muitos foram os técnicos que trabalharam com José Maria Santos nestes anos todos de Lá. Assim a cada nova temporada, novo programa ia sendo confeccionado. Este último, então, contém trechos interessantes.

“Diálogo entre o ator ricaço José Maria Santos e o autor risonho Sérgio Jockyman, na privada da rodoviária de Alegre­te-RS, enquanto os dois mijavam, após uma apresentação da comédia “LÁ”, com casa cheia.

Zé Maria - O zíper enguiçou...

Jockyman - Bem feito, quem manda ter mudado o texto do “Lá”, enchendo de palavrão.

Zé Maria - Também, tu só escreve palavrinha, a começar pelo título das peças:

Lá, Treze, Se.

Jockyman - Que mijada gostosa, não tava me aguentando mais...

Zé Maria - Tu tava era mijado de tanto rir.

Jockyman - Vi dizer que tu ficou rico com o Lá, tchê!

Zé Maria - Claro, fiz mais de 1800 apresentações.

Jockyman - Então por que eu não re­cebi sequer um tostão de direito autoral?

Zé Maria - Dane-se. A SBAT deve ter ficado com a grana toda. Eu tenho to­dos os recibos aqui, quer ver?

Jockyman - Dá, que me limpo com estes recibos.

Zé Maria - Usa só do lado que não está escrito, tá. E me devolve.

Jockyman - Ando numa banana fe­deral, correndo de um advogado para ou­tro, em busca dos meus pobres dinheiros. Como tu sabe, o Correio do Povo fechou e não paga há meses.

Zé Maria - E eu com isso!

Jockyman - Exatamente é aí que tu entra em cena. Tá aqui o texto do “Tre­ze”. Tu monta a peça e eu livro uns co­bres.

Zé Maria - Quer dizer que tu vai me cobrar?

Jockyman - Se tu não montar o “Treze” eu te tranco nesta privada! E olha que essa privada fede uma barbari­dade.

Zé Maria - Mas vai ter público?

Jockyman - Esse “Treze” merece o nome que tem. Em Porto Alegre escolhi mal o teatro, não fiz divulgação e escolhi mal os atores. O público foi pra ver uma coisa e viu outra. Já no meio da estréia, eu senti o drama.

Zé Maria - E o Goulart?

Jockyman - O Paulo faturou o que quis em São Paulo. Mas ele se enganou também, dividiu a peça em dois atos para os cariocas e ó... Fui ao Rio assistir e, com toda a modéstia, tava medonha.

Zé Maria - Ô alemão, quer dizer que agora tu quer botar no meu!

Jockyman - Bueno, só tu pode salvar o “Treze” de uma zebra. Ela não e uma comédia burguesa. Portanto, não pode agradar o público burguês, porque ela é ba­sicamente uma parábola sobre a situação nacional. Em São Paulo ela teve o público certo. No Rio e em Porto Alegre recebeu o público errado.

Zé Maria - E tu quer que eu procure o público certo? Mas aonde, meu Deus!

Jockyman - Não mete Deus nisso, porque é Ele que fica pondo as zebras, só pra gente não ganhar...

Zé Maria - Vamos fazer uma fezinha?

Jockyman - Eu aposto na tua monta­gem e fico torcendo descaradamente pelo teu sucesso. Mas desta vez, vê se me paga, e não fica fazendo estes recibos falsos”.

Naturalmente este diálogo é uma invenção. O texto é de autoria do próprio Zé Maria. Aliás uma das maiores reclamações dos autores montados por Zé Maria é da co-autoria. Zé Maria era célebre em “escanganhar” com o texto dos outros. Muitos, aliás, dizem que a partir da milésima apresentação, Lá só fazia constar o nome de Jockyman, já que o texto guardava muito pouca relação com o estrelado em 1971.

Zé Maria foi sempre muito criticado por isso. Mas seja como for, ninguém mais do que ele para saber as reações do público. Todas as mudanças que ele fazia nos textos, eram unicamente para torná-lo mais acessível e atrativo.

Zé Maria sempre aproveitava para nos programas de seus espetáculos contar suas histórias, quase sempre muito bem humoradas. Histórias que segundo a estudante Ivane Angélica, atriz e produtora no grupo de Teatro do Cefet, estariam sendo escritas por Zé Maria para serem editadas em breve em forma de livro. Porém Zé Maria morreu e ninguém sabe onde estariam estes manuscritos. Provavelmente Zé Maria nem chegou a colocar no papel. O livro estava em sua cabeça “fervilhante” e criativa.

Outro trecho do programa de "Lá" dá uma idéia de como iria ser divertido ler esse livro.

“Um currículo do ator José Maria Santos pode muito bem começar assim: “Eis as peças que ele não fez”. Zé Maria já fez tantas peças que é mais fácil e econômico relacionar as que ele não fez. De qualquer forma, Zé Maria teve duas iniciações teatrais: uma quando tinha três anos de idade e foi obrigado a encenar uma longa choradeira para ganhar um sorvete. A outra, em 1954, na Escola de Arte Dramática do Sesi. Ele nunca parou. Nem com o sinal fechado. Como vocês devem estar lembrados, dez anos depois da iniciação teatral de Zé Maria, o sinal fechou...”

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